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Laís Santos Araújo transforma curta-metragem da Berlinale “Infantaria” em longa-metragem

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Após a exibição em festivais internacionais de seu aclamado curta-metragem “Infantaria”, exibido na Berlinale, a diretora brasileira Laís Santos Araújo está desenvolvendo o projeto em um longa-metragem. O produtor Pedro Krull, da Aguda Cinema, lidera o projeto através da prestigiada Cannes Cinéfondation Résidence e de uma série de iniciativas de desenvolvimento europeias.

Tendo como pano de fundo as paisagens de Alagoas, no Nordeste do Brasil, o filme amplia o universo vislumbrado no curta-metragem; um ecossistema familiar centrado em Ludmilla, uma costureira que dirige discretamente um serviço clandestino de aborto em sua casa, alugando uma cama para mulheres submetidas ao procedimento ilegal. Enquanto o curta se limitou à jovem Joana, o longa amplia seu foco para a própria Ludmilla e Eduardo, a quem Araújo descreve como “solitário e confuso e de quem gostaria de ser melhor compreendido”. A expansão nunca foi o plano.

“Não foi nada planejado, nunca fizemos o curta com a intenção de torná-lo um longa ou uma ‘prova de conceito’”, disse Araújo diversidade. “Mas fiquei pensando nos personagens e no universo do curta. Vemos apenas um breve momento daquela dinâmica familiar no curta e senti que havia muito mais que poderia acontecer naquela casa.”

Situado num Brasil onde o aborto continua a ser criminalizado, Infantaria aborda a perspectiva da criança através de um lugar marcado pelo controlo militar, uma economia secreta e a violência silenciosa do silêncio, embora Araújo seja inflexível ao afirmar que as dimensões políticas são absorvidas em vez de explicadas.

“O filme vai focar nos sentimentos dessas três pessoas e lidar com a vida em torno dessas coisas. Na vida, há sempre um contexto político maior ao nosso redor, e nem sempre somos capazes ou estamos dispostos a entendê-lo, discuti-lo ou agir sobre ele. Em vez de lutar contra ele, a família no filme simplesmente tem que lidar com os efeitos deste mundo.”

Ela argumenta que é justamente essa recusa em editorializar que permitirá ao filme funcionar como um retrato nacional em miniatura. “O cerne da história, a história de uma família que se desfaz pela necessidade de se calar sobre algo muito normal e cotidiano – o aborto – está muito bem preservado. Acho que o filme condensa na família o que está acontecendo no Brasil: algo que é generalizado, mas tratado como tabu, que tem consequências duras para as mulheres e para a sociedade como um todo.”

Estilisticamente, o longa representa uma ruptura com a gramática composicional mais controlada dos contos de Araújo, trocando o silêncio pelo dinamismo. “Sei que quero que o filme pareça vivo, com movimento e com um ritmo mais rápido que o curta. Até agora escolhi uma forma bem mais descontraída de elaborar minhas histórias, o que gosto muito, mas quero dar mais movimento e vida a esse longa.”

O cenário de Alagoa, assim como o estado natal do diretor, continua sendo uma âncora visual orientadora e contraponto à vida interior da família. “O contraste entre beleza e tristeza me inspira muito e sinto que crescer em Alagoas foi fundamental para isso. Quero filmar lá e registrar as lindas paisagens que tenho na cabeça. É natural para mim que o filme tenha imagens ensolaradas e coloridas, mesmo que os sentimentos e o tom do filme nem sempre sejam assim. Como eu cresci lá, realmente é sempre ensolarado e quente – mesmo quando você está triste, mesmo em momentos trágicos; e é assim que eu vejo o filme.”

O desenvolvimento do projeto foi particularmente robusto. “Infantaria” recebeu recentemente uma bolsa de redação CNC após uma sessão de pitching perante um júri composto por Gabrielle Dumon, Payal Kapadia e Hédi Zardi e foi selecionado para La Fabrique Cinéma, BrLab, CineMundi e MAFF.

Anteriormente, beneficiou-se da incubadora Paradiso, com duração de um ano, apoiada pelo Projeto Paradiso, que forneceu consultoria de roteiro internacional e nacional, bem como um dossiê adaptado ao mercado global.

Sobre o Cannes Résidence em si, Araújo é inequívoco: “A residência com o projeto foi ótima, abriu muitas oportunidades para mim e me deu tempo para desenvolvê-lo melhor. Pudemos conversar sobre nossos filmes com pessoas e diretores que admiramos, como Luc Dardenne e Kelly Reichardt, e ouvir a perspectiva deles sobre o cinema.

Para o produtor Pedro Krull, da Aguda Cinema, o projeto simboliza um renascimento regional maior, com a empresa se posicionando como uma incubadora criativa de vozes emergentes de Alagoas. “O Nordeste do Brasil é onde nascem e são produzidas as ideias cinematográficas mais interessantes, emocionantes e inovadoras, e é realmente um prazer fazer uma pequena parte dele. A Aguda Cinema é uma produtora boutique que gosta de desenvolver filmes de forma criativa junto com jovens escritores, especialmente de Alagoas. E com Infantaria essa filosofia é implementada ao máximo.”

Contudo, este optimismo regional é temperado pelo realismo estrutural – a sensação de que a actual onda de oportunidades é frágil e dependente de políticas. “No Brasil há muitas diferenças, até mesmo regionais. No nosso estado só agora começamos a fazer longas-metragens. Porque agora temos uma política federal que compartilha recursos com locais que antes eram considerados pouco desenvolvidos no setor cinematográfico. Sinto que é um momento cheio de possibilidades, mas ainda temos muito trabalho a fazer para que isso não seja apenas temporário.”

Com um orçamento já fixado em 880 mil euros (1,0 milhão de dólares americanos) e 590 mil euros (684.400 dólares americanos), a equipa em Cannes procura os alicerces finais. “Na Infantaria queremos dedicar algum tempo para desenvolver ainda mais o guião e realmente entrar em contacto com parceiros e públicos europeus.

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