RIO DE JANEIRO (AP) – Uma grande operação policial contra uma gangue de traficantes infiltrada em bairros de baixa renda do Rio de Janeiro matou pelo menos 119 pessoas, disseram autoridades na quarta-feira, enquanto a operação mais mortífera da polícia do Rio de todos os tempos atraiu críticas por violência excessiva.
O novo número de 115 suspeitos e quatro policiais mortos foi um aumento em relação ao que as autoridades inicialmente disseram ter sido 60 suspeitos mortos na operação de terça-feira realizada por cerca de 2.500 policiais e soldados nas favelas da Penha e do Complexo do Alemão.
Felipe Curi, secretário da Polícia Estadual do Rio, disse em entrevista coletiva que os corpos de outros suspeitos foram encontrados em uma área arborizada onde, segundo ele, eles usavam camuflagem enquanto lutavam contra as forças de segurança. Ele disse que os moradores locais removeram roupas e equipamentos dos corpos, o que seria investigado como adulteração de provas.
“Esses indivíduos estavam na mata, munidos de roupas camufladas, coletes e armas. Agora muitos deles apareciam de cueca ou bermuda, sem equipamento, como se tivessem passado por um portal e trocado de roupa”, disse Curi.
Na manhã de quarta-feira, no bairro da Penha, moradores cercaram muitos dos corpos – empilhados em caminhões e expostos em uma grande praça – gritando “massacre” e “justiça” antes que as autoridades forenses chegassem para recuperar os restos mortais.
“Podem levar para a cadeia, por que matá-los assim? Muitos deles estavam vivos e clamavam por socorro”, disse a moradora Elisangela Silva Santos, 50 anos, durante a concentração na Penha. “Sim, são traficantes, mas são pessoas”.
O número de suspeitos presos foi de 113 – acima dos 81 citados anteriormente, disse Curi. O governo do estado informou que cerca de 90 fuzis e mais de uma tonelada de drogas foram apreendidos.
A polícia e os soldados lançaram o ataque em helicópteros, veículos blindados e a pé, visando a gangue do Comando Vermelho. Eles provocaram tiros e outras retaliações de membros de gangues, provocando cenas de caos em toda a cidade na terça-feira. As escolas nas áreas afetadas foram fechadas, uma universidade local cancelou aulas e estradas foram bloqueadas com autocarros usados como barricadas.
Muitas lojas permaneciam fechadas na manhã de quarta-feira em Penha, onde o ativista local Raull Santiago disse fazer parte de uma equipe que encontrou cerca de 15 corpos antes do amanhecer.
“Vimos pessoas executadas: tiros nas costas, tiros na cabeça, esfaqueamentos, pessoas amarradas. Este nível de brutalidade, o ódio que está sendo espalhado – não há outra maneira de descrever isso senão um massacre”, disse Santiago.
O governador do estado do Rio, Claudio Castro, disse na terça-feira que o Rio estava em guerra contra o “narcoterrorismo”, um termo repetido pelo governo Trump em sua campanha contra o tráfico de drogas na América Latina.
Na quarta-feira, Castro classificou a operação como um “sucesso”, exceto pelas mortes dos quatro policiais.
O governo do estado do Rio disse que os suspeitos mortos resistiram à polícia.
O Rio tem sido palco de operações policiais mortais há décadas. Em março de 2005, cerca de 29 pessoas foram mortas na Baixada Fluminense, no Rio, enquanto em maio de 2021, 28 foram mortas na favela do Jacarezinho.
Mas a escala e a letalidade da operação de terça-feira não têm precedentes. As ONG e os organismos de direitos humanos da ONU rapidamente levantaram preocupações sobre o elevado número de mortes relatadas e apelaram à realização de investigações.
“Compreendemos perfeitamente os desafios de ter de lidar com grupos violentos e bem organizados como o Comando Vermelho”, disse a porta-voz da ONU para os direitos humanos, Marta Hurtado.
Mas o Brasil deve “quebrar este ciclo de extrema brutalidade e garantir que as operações de aplicação da lei sigam os padrões internacionais para o uso da força”, disse ela, acrescentando que o órgão apelou a uma reforma policial completa.
O objetivo declarado da operação era capturar lideranças e limitar a expansão territorial da quadrilha Comando Vermelho, que aumentou seu controle sobre as favelas nos últimos anos.
Diz-se que membros de gangues atacaram a polícia com pelo menos um drone. O governo do estado do Rio de Janeiro compartilhou um vídeo no X que parecia mostrar um drone disparando um projétil do céu.
O governador Castro, do conservador Partido Liberal, de oposição, disse na terça-feira que o Rio estava “sozinho nesta guerra”. Ele disse que o governo federal deveria fornecer mais apoio ao combate ao crime – em um golpe contra o governo esquerdista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Seus comentários foram contestados pelo Ministério da Justiça, que afirmou ter respondido aos pedidos do governo do estado do Rio para enviar forças nacionais ao estado e renovou sua presença 11 vezes.
Gleisi Hoffmann, representante do governo Lula no parlamento, concordou que era necessária uma ação mais coordenada, mas apontou a recente repressão à lavagem de dinheiro como um exemplo da ação do governo federal contra o crime organizado.
O chefe da Casa Civil de Lula, Rui Costa, solicitou uma reunião de emergência na quarta-feira no Rio com autoridades locais e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski.
As gangues criminosas expandiram sua presença em todo o Brasil nos últimos anos, inclusive na floresta amazônica.
Roberto Uchôa, do think tank Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse que as gangues criminosas se fortaleceram apesar desse tipo de operação, sugerindo que são ineficazes.
“Matar mais de 100 pessoas desta forma não ajudará a reduzir a expansão do Comando Vermelho. Os mortos serão substituídos em breve”, disse Uchôa.
Filipe dos Anjos, secretário-geral da organização pelos direitos das favelas FAFERJ, expressou o sentimento.
“Dentro de cerca de trinta dias, o crime organizado já estará se reorganizando no território, fazendo o que sempre faz: vender drogas, roubar cargas, cobrar pagamentos e taxas”, disse.
“Em termos de resultados concretos para a população, para a sociedade, este tipo de actividade não rende praticamente nada”, acrescentou.



