Rfileiras retas de clones de eucalipto flanqueiam o assentamento de Baixa Verde, no nordeste do Brasil. As árvores geneticamente idênticas contrastam acentuadamente com as manchas de floresta atlântica selvagem – uma das ecossistemas mais biologicamente diversos na Terra – que permanecem espalhados por toda a região.
Cercado por quase 100.000 hectares Com 247 mil hectares de plantações de eucalipto, Baixa Verde é um raro exemplo de vitória local sobre uma empresa multinacional no Brasil. O assentamento rural deve a sua existência a quase duas décadas de batalhas legais sobre os direitos à terra – mas a luta ainda não acabou.
Depois de lutarem para manter as suas terras, as famílias enfrentam agora uma crise de segurança sem precedentes, marcada por confrontos armados, incêndios criminosos e ameaças de morte, parte de uma onda de violência alimentada por uma disputa de terras que se intensificou desde 2024.
Os conflitos sobre os direitos à terra são há muito um problema na região. A obtenção de títulos de propriedade é geralmente considerada legitimar a apropriação de terras de comunidades tradicionais, e a população local suspeitava que a Veracel Celulose – uma empresa de celulose de propriedade conjunta da empresa sueco-finlandesa Stora Enso e da gigante brasileira de celulose Suzano – estava plantando eucaliptos em terras públicas.
Em 2008, Ercilio Souza, um dos fundadores do assentamento Baixa Verde, e Juenildo Oliveira visitaram os arquivos do governo de Faria para revisar documentos públicos. Encontraram a página que comprovava que os 1.300 hectares em disputa pertenciam ao governo. “Sempre soubemos que era terra pública”, diz Souza.
Com o documento em mãos, eles reuniram 91 famílias locais e aderiram ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), organização política e social que luta pela reforma agrária. Sua primeira ação foi ocupar uma área de plantio de eucalipto utilizada pela Veracel, acusando a empresa de uso de terras públicas.
Dois anos após a ocupação original, o MST obteve o reconhecimento do governo de que a empresa não era proprietária legal do terreno plantado pela Veracel. “Este documento foi uma vitória não apenas para o movimento local pelos direitos à terra, mas para todos os movimentos sociais no Brasil”, disse Jhedys Lemos Farias, que cresceu no acampamento e hoje é um dos líderes do MST.
Após anos de bloqueios de estradas e batalhas judiciais, o estado da Bahia assinou um acordo com a Veracel e o MST em 2016, devolvendo 1.300 hectares de terras da Veracel ao governo e dando a cada família um terreno grande o suficiente para cultivar seus próprios alimentos. Das 61 famílias que restam, 53 mudaram-se para os seus novos lotes.
“Conquistar o direito à terra significa que agora temos um lugar para cuidar dos nossos mais novos”, afirma Lemos Farias.
Dapesar da perda do terreno, um representante da Veracel afirma que a empresa sempre atuou com “transparência, responsabilidade social e ambiental” e respeito à população local. “A empresa nunca foi condenada por grilagem de terras e confirma que suas áreas de produção estão legalmente regulamentadas e operadas com as licenças ambientais exigidas”.
Ainda assim, nos anos que se seguiram ao acordo, as famílias afirmam ter sofrido ameaças de morte, tiros, casas queimadas, produtos roubados e campos destruídos.
Segundo o MST, o conflito agora gira em torno de lotes ainda ocupados por agricultores filiados ao sindicato local, O Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Agricultura Familiar (Gordo). Quando estava prestes a perder a posse das terras em disputa, a Veracel doou 300 hectares próximos ao sindicato – doação confirmada pela direção da Fetag, segundo gravação de audiência pública foi realizado junto à Ouvidoria Nacional da Agricultura da Bahia.
depois da campanha do boletim informativo
Nos últimos quatro anos, seis líderes do MST foram colocados sob a proteção do programa de proteção do Brasil para defensores de direitos humanos, comunicadores e ambientalistas. O governo recomendou que alguns destes líderes se mudassem, mas por lealdade ao movimento e apego ao seu país duramente conquistado, eles recusaram.
Por causa das ameaças de morte que recebeu, Souza diz que tem dificuldade para dormir à noite. “Estou com muito medo de que algo aconteça com minha família”, diz ele. “Há muita perseguição acontecendo aqui. Nossas barracas foram incendiadas, assim como nossos canaviais”.
O MST afirma que oito famílias não se sentem seguras para cultivar seus terrenos, que permanecem ocupados por agricultores supostamente associados à Veracel.
A Veracel afirma que, nos últimos 15 anos, destinaram “mais de 20 mil hectares para iniciativas de reforma agrária, seja por meio de convênios legais, doações ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), doações ou vendas diretas, para resolver conflitos em curso no território”.
A empresa afirma ainda que “a criação dos assentamentos – desde o projeto até o loteamento e definição do lote – foi realizada integralmente pelo governo do estado, sem interferência da empresa”, e “não comenta conflitos entre movimentos sociais”.
Marli dos Santos é uma das duas pessoas que ainda moram no antigo acampamento. Ela diz que foi assediada por homens armados que cercaram sua casa e atiraram no chão em frente à sua casa. Como ninguém mora nas proximidades, Santos – que mora sozinha – acredita que os tiros tinham a intenção de assustá-la e impedi-la de recuperar o terreno que lhe foi atribuído.
Em agosto, o estado da Bahia aprovou a retirada dos agricultores da Fetag remanescentes nos lotes de Baixa Verde – mas a decisão ainda não foi aplicada.
A Fetag não respondeu a um pedido de comentário.
Balém da defesa contra ameaças e violência, a conversão de terras outrora utilizadas para a monocultura de eucalipto na produção de alimentos é hoje o maior desafio para as comunidades da Baixa Verde. A produção de eucalipto é dominada por grandes empresas multinacionais que, desde a década de 1960converteram terras agrícolas e florestas em plantações de monoculturas, impulsionadas pela procura global.
O Brasil é o maior produtor mundial de eucalipto, uma planta de rápido crescimento, planta com uso intensivo de águacuja celulose é exportada para a fabricação de papelão e produtos de papel. A maior parte da pasta de eucalipto do país é exportada para a Europa, onde é utilizada para fabricar produtos de papel que são frequentemente comercializados como uma alternativa renovável ao plástico – apesar dos danos ambientais causados pela monocultura.
Na Bahia, a expansão dessas fazendas ganhou o nome local de “deserto verde”, devido à perda da vida silvestre e aos severos falta de água e terra vivido por famílias que vivem perto de plantações de eucalipto.
Souza cresceu na região e lembra do rio antes da transformação da região pela monocultura do eucalipto, promovida pela Veracel. “Atravessávamos de canoa. Estava lotado”, conta. “Depois que a Veracel chegou, ela secou.” Ele atribui a escassez de água à chegada da empresa em 1991.
A Veracel afirma “adotar um sistema de manejo em mosaico, onde o eucalipto é cultivado em áreas de chapada, preservando-se vales, nascentes e vegetação nativa. Esse modelo garante a proteção do solo, a conservação da vida selvagem e a manutenção dos recursos hídricos”. A empresa afirma ainda que está “realizando monitoramento contínuo das microbacias em sua área de atuação” e “desenvolvendo projetos de replantio e restauração florestal em áreas próximas às comunidades”.
No estado vizinho de Minas Gerais, a região eucalipto Turmalina viu seu redução do nível das águas subterrâneas em 4,5 metros nos últimos 45 anos, segundo pesquisadores na Universidade Federal de Minas Gerais.
Vegetação sob monocultura de eucalipto absorve 26% da chuva para restaurar os níveis das águas subterrâneas – em comparação com um nível de absorção de 50% associado à floresta nativa. Três quartos das famílias de agricultores pesquisadas em Minas Gerais relataram que suas colheitas foram afetadas pela escassez.
O cultivo do eucalipto também significa um aumento do risco de incêndios florestais. As plantações são tão inflamáveis que o Chile descartou o eucalipto como solução climática viável após uma série de grandes incêndios florestais nas suas plantações nativas.
Apesar dos riscos ambientais, as plantações de eucalipto continuam a desempenhar um papel significativo no mercado de carbono, com árvores vendidas como créditos de carbono a poluidores de combustíveis fósseis para compensar as suas emissões. Apesar da oposição de ativistas, em maio passado, o governo brasileiro aprovou uma lei excluir o eucalipto da lista de indústrias que necessitam de licença ambiental.
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