O que é, nas ciências sociais, um cisne negro? Acontecimentos imprevisíveis e de grande impacto para os quais não podemos preparar-nos: o 11 de Setembro, a crise económica, a pandemia de covid-19.
Por Paula Canelo, no jornal La Nación
Nos últimos anos, a vida em democracia na América Latina e nas Caraíbas mostrou-nos, com o aumento inesperado dos cisnes negros. Tenhamos em mente e revisemos algumas coisas: a emergência e a legitimidade dos líderes eleitos da nova direita (no Equador, no Brasil, na Bolívia, na Argentina, em El Salvador); a ascensão popular de estrangeiros que governam contra as regras do sistema (na Argentina, no Peru, na Bolívia); calúnias ou demissões de legitimidade duvidosa (no Paraguai, Brasil, Peru, Honduras, Equador), escândalos de corrupção, tentativas de assassinato, operações diversas de violência política, campanhas de notícias falsas capazes de distorcer acontecimentos fundamentais da vida política, etc.
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É verdade que estes são tempos hostis e tumultuados, em grande parte devido ao impacto da cultura digital e das redes sociais. Mas para que o recurso aos cisnes negros não seja uma resposta preguiçosa. Acreditamos que isto nos diz algo mais: sobre profundas mudanças sociais e políticas que apenas começamos a reconhecer.
Hoje, muitas democracias do país são alvo de grupos predatórios que procuram destronar ou derrubar governos através de simples redes sociais.
Hoje, a diminuição dos recursos dos nossos Estados não consegue resolver a acumulação de novas camadas de desigualdade, como digital e tecnológica, além das desigualdades já profundamente enraizadas na região: rendimento, género, idade, origem étnica, deficiência, sexual, simbólica, etc.
Hoje, as classes sociais, centro do instrumento dos nossos pais intelectuais, parecem ter sido transformadas em aglomerados e as nossas sociedades de massa em arquipélagos. A ideia de “crise” já não suporta muitos adjetivos. Muitos dos principais atores dos paradigmas do passado estão em rápida transformação: agricultura, indústria, trabalhadores, empresários, organizações sociais, partidos políticos. Por exemplo, as subjetividades populares, que antes associávamos à comunidade e à homogeneidade, tornaram-se hoje individualizadas e fornecem o apoio muito condicional aos “resultados” democráticos.
Tentamos tirar demasiada democracia (delegativa, branda, ameaçada, em declínio) porque, sentimos, ela a perdeu: e embora ainda seja uma democracia, é cada vez mais surpreendente para nós. Quanto mais haverá que ainda não vimos e que emergirá em algum momento como um novo (outro) cisne negro para o qual não estamos preparados?
Uma grande tarefa permanece nas ciências sociais: vamos utilizar as nossas ferramentas e repensar os paradigmas, conceitos e métodos que nos permitem penetrar na opacidade das nossas sociedades. Sabemos que formar uma parceria é a melhor forma de navegar em tempos hostis.



