Os resultados das eleições de domingo deixam o panorama político aberto ao progresso na procura de um compromisso.
Por Torcuato Sozio, na revista Clarín
Muitas vezes se declara – e com razão – sobre a conveniência de assinar “tratados” ou “acordos”, como o famoso Pacto da Moncloa na Espanha (1977). Desse processo emergiram dois documentos: “Um Consenso sobre a Reforma Sanitária e Económica” e “Acção Legal e Política”. Ele, essencial para a Espanha sair do regime francês, abriu a porta para um sistema democrático através do consenso crítico.
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Legitimou as políticas económicas que permitiram ao país sair da profunda crise que se arrastava desde 1973, pondo fim a uma década de instabilidade. Mercedes Cabrera, professora da Universidade Complutense, destacou que o acordo permitiu pela primeira vez expressar os partidos políticos e sociais comuns. Quanto à extrema direita e à esquerda ainda fragmentada, foram promovidas reformas fiscais e políticas, que geraram um aumento na distribuição de renda. As mudanças foram construídas a partir do espírito de cooperação nas mãos dos próprios protagonistas: os partidos de oposição e as figuras.
Entre os autores estão Manuel Fraga Iribarne, Felipe González e Santiago Carrillo. Lembrou que “havia poder político, sinceridade e vontade técnica em todos os jogadores reunidos”.
O discurso de González resume esse clima: “Devemos nos considerar parte do público, para sermos consistentes com o destino global do país”. Para além da força retórica, ele condensa um modelo político ético: reconhecer a oposição como parte do Estado, não como um inimigo.
Este espírito valorizava os acordos como instrumentos de diálogo e restauração. Na América Latina, o Pacto Punto Fijo na Venezuela (1958) reforçou a estabilidade democrática através do compromisso entre os partidos e da exclusão da violência como meio de acesso ao poder. Uma década depois, a Aliança de Clubes Navais no Uruguai (1985) marcou o retorno ao institucionalismo após a ditadura. Em diferentes contextos, estes acordos foram pontes entre actores opostos, formas de restaurar a confiança e formas de abrir o diálogo em sociedades feridas.
Porque foram feitas com todos os partidos e não contra alguns. O seu concerto foi a chave: toda a gama de vozes, incluindo dissidência, escuta e doação. Na Argentina, o exemplo mais importante foi o tratado político que publicou a Constituição em 1994, produto de um consenso amplo e popular.
A Ouvidoria precisaria retomar esse espírito e recuperar o diálogo popular, desenvolvendo uma agenda modesta, mas consistente, que inclua questões institucionais, sociais e políticas como: a constituição da Ouvidoria, a equidade previdenciária e uma distribuição de recursos mais equitativa e federal. É claro que isto requer uma mudança profunda na lógica do poder. Mais uma vez, como alertou Felipe González, “a força do Estado não consiste na sua homogeneidade, mas na capacidade de assumir a diversidade como parte de um mesmo plano nacional”. Este conceito de corresponsabilidade foi reduzido à perspectiva da missão de reconstrução.
Os acontecimentos de domingo deixam o campo político ideal para avançar numa direção semelhante aos exemplos dados neste artigo. É o governo quem deve dar o pontapé inicial. Mas a oposição, e especialmente o Kirchnerismo, deve ser combinada com magnanimidade e visão estratégica. Novamente dizemos: é com todos.



