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O ato de equilíbrio de Lula: Cúpula Cop30 da Amazônia concilia prioridades climáticas e sociais | Cop30

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BO presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu líderes mundiais em Belém para a primeira cúpula do clima na Amazônia, onde os conservacionistas esperam que ele possa ser um defensor da floresta tropical e de seu povo.

Mas com uma administração dividida, um Congresso hostil e instintos de desenvolvimento do século XX, esta figura de proa global do centro-esquerda tem um acto de equilíbrio para defender a protecção da natureza e a redução das emissões.

Na abertura da cimeira, na quinta-feira, ele disse que a sua prioridade era o desenvolvimento social, mas a humanidade tinha de fazer uma transição energética e travar a perda de florestas.

Ele disse: “Estou convencido de que, apesar das nossas dificuldades e contradições, precisamos de roteiros para – de uma forma justa e planeada – reverter a desflorestação, superar a dependência dos combustíveis fósseis e mobilizar os recursos necessários para estes objectivos”.

Estas dificuldades e contradições têm sido evidentes nos últimos meses, com o governo a anunciar progressos impressionantes na redução da desflorestação, ao mesmo tempo que impulsionava uma série de projectos que abririam a Amazónia ao extractivismo.

O presidente Lula dá as boas-vindas aos líderes mundiais em Belém, o coração da Amazônia, pela primeira vez para a cúpula do clima. Foto: Wagner Meier/Getty

Primeiro, as boas notícias. O desmatamento na Amazônia brasileira tem caiu 50% durante todos os três anos do terceiro mandato de Lula. Os últimos números anuais do governo mostram a menor área desmatada em 11 anos. Isto se deve em grande parte à ministra do Meio Ambiente de Lula, Marina Silva, que implementou medidas fortes para combater invasões de terras, extração ilegal de madeira e mineração ilegal.

Como resultado, o Observatório do Clima estima que as emissões do Brasil – que são determinadas principalmente pela saúde de suas florestas – têm diminuiu 16,7%provavelmente o declínio mais acentuado de qualquer uma das economias do G20.

Esses ganhos foram evidentes quando Lula defendeu que mais nações aderissem à principal iniciativa do Brasil na Cop30: o Tropical Forest Forever Facility, que visa angariar 125 mil milhões de dólares (95 mil milhões de libras) para proteger as florestas em pé. Até agora, a iniciativa arrecadou cerca de 5,5 mil milhões de dólares, com investimentos de 3 mil milhões de dólares da Noruega, mil milhões de dólares cada do Brasil e da Indonésia, e somas menores de Portugal, Países Baixos e outros países.

O dinheiro é desesperadamente necessário para evitar o perigo crescente de que a maior floresta tropical do mundo diminua para além de um ponto sem retorno, após o qual será condenada a secar numa savana e a perder muitas das suas funções globalmente importantes, como a estabilização climática, o transporte de água e a provisão de habitat.

Cientistas experientes alertaram que isso já está acontecendo em grandes partes da Amazônia, especialmente nos estados de Mato Grosso, onde houve uma rápida expansão das plantações de soja, e no Pará, onde a principal causa da destruição é a indústria da carne bovina. O enfraquecimento da floresta também foi acelerado pelo fogo (extensamente utilizado para desmatamento) e pela poluição dos rios com mercúrio (utilizado na mineração de ouro).

Antonio Donato Nobre, cientista de sistemas terrestres que trabalha na Amazônia há 20 anos, disse que a floresta já mostra sinais de colapso. Ele disse que a seca está a tornar-se mais severa, as temperaturas em algumas áreas desmatadas subiram até 7 graus e a degradação está a acelerar mesmo com a desaceleração da desflorestação. Isto representa uma ameaça global, disse ele, não só devido a uma capacidade reduzida de sequestro de carbono, mas porque uma floresta tropical mais fraca significa menos cobertura de nuvens para reflectir o calor do Sol de volta para o espaço, potencialmente uma ameaça maior ao aquecimento do que os gases com efeito de estufa.

Imagens de drones mostram o desmatamento na Amazônia brasileira, que corre o risco de diminuir além de um ponto sem retorno. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Nobre disse que a primeira cimeira sobre o clima na Amazónia foi uma oportunidade para colocar a natureza no centro das soluções climáticas, mas também poderia ser um desastre se os líderes apenas falassem da importância da floresta, ao mesmo tempo que avançam com projectos destrutivos. “Minha principal mensagem é levar a sério”, disse ele. “O empreendimento de maior sucesso do planeta se chama vida. Temos em mãos uma tecnologia que tem 4 bilhões de anos e que passou por vários ciclos de destruição, renascimento e restauração.”

Contudo, Lula depende do apoio dos sectores agrícola e mineiro para permanecer no poder. “Homem rural“Os políticos dominam o Congresso, controlam vários ministérios e promovem uma agenda extrativista agressiva que vai contra a conservação das florestas. Este lobby é agora a força motriz da política brasileira.

Embora Lula tenha vetado alguns dos seus planos mais radicais para erradicar resmas de requisitos de licenciamento ambiental, ele também pareceu mais do que disposto a apoiar outras partes da sua agenda para dividir a Amazónia e outros biomas para a produção de combustíveis fósseis e monoculturas.

Há três semanas, o seu governo aprovou licenças de perfuração para exploração de petróleo e gás na Foz do Amazonas, ao largo da costa da floresta tropical, uma medida que aumenta os riscos de poluição que a floresta enfrenta, aumenta a probabilidade de destruição da vegetação por indústrias relacionadas e contraria o conselho da Agência Internacional de Energia de que será impossível não cumprir os objectivos de desenvolvimento global do Acordo de Paris se estes forem completamente restringidos.

Depois, há os planos do governo para modernizar a rodovia BR-319 entre Manaus e Porto Velho, o que colocará uma pressão sem precedentes nas regiões ocidentais da Amazônia brasileira, que tem sido – até agora – uma das últimas regiões saudáveis ​​da floresta.

Outra grande área intacta fica perto da fronteira noroeste com a Venezuela, mas esta também está ameaçada planeja permitir mineração industrial na área de origem dos Yanomami.

“Estamos muito preocupados”, disse uma das pessoas da região, Ehuana Yaira Yanomami, que veio a Belém para transmitir os temores das mulheres de sua comunidade. “Não queremos que o nosso povo sofra, estamos muito preocupados e por isso nos manifestamos, porque a mineração ilegal só traz sofrimento às nossas comunidades. Queremos ver as nossas crianças saudáveis, sem lama e sem os peixes contaminados”.

Mais ao sul, o governo anunciou no final de agosto que iria “desestatizar” as hidrovias federais de três grandes rios – o Tapajós, o Madeira e o Tocantins – que visto como um primeiro passo para a sua privatização e transformação numa “hidrovia”Rota de transporte aquaviário para soja enviada do Mato Grosso.

Lula e o presidente francês, Emmanuel Macron, reúnem-se com os Yanomami e outros porta-vozes indígenas na Ilha do Combu, Belém, Brasil. Foto: Witt Jacques/Abaca/Rex/Shutterstock

Lula, que começou a carreira política como negociador sindical, tem tendência a concentrar-se mais nos benefícios sociais que poderiam advir do aumento do investimento na Amazónia, ao mesmo tempo que encobre os riscos muito maiores que a crise climática representa para os seus habitantes humanos e não humanos.

Isso ficou evidente na semana passada em uma visita promocional pré-Cop30 às comunidades florestais ao longo do rio Tapajós. Na aldeia de Vista Alegre do Capixauã, povo Kumaruara, o presidente disse estar pronto para defender aqueles que protegem as florestas e prometeu melhorar a saúde, a educação e a habitação locais. Isso estava muito de acordo com uma das declarou os objetivos na cimeira: fazer da protecção social uma base para a resiliência.

Mas durante as partes da sua visita que foram abertas à imprensa, Lula não mencionou nenhuma vez o clima, embora esta seja uma preocupação crescente para a população local – e para uma grande maioria da população mundial.

O chefe de uma aldeia vizinha, Luis Antonio Bentes de Sousa, disse ao Guardian que grande parte do rio secou durante a seca recorde do ano passado, deixando as comunidades daqui isoladas e com dificuldades para se sustentarem. Ele disse que sua horta encolheu, a maioria de suas árvores frutíferas morreu e, pela primeira vez em seus 70 anos de vida, ele não conseguiu cultivar mandioca, o principal alimento da dieta amazônica.

“Está ficando mais quente e seco”, disse ele. “Eu me preocupo com meus filhos e netos.”

Outros falaram de mortes em massa de peixes devido ao calor, à poluição e aos baixos níveis de água, e expressaram receios de que esta situação piore quando o rio do qual dependem for privatizado e transformado num canal para barcaças de soja.

Esses temas incômodos – e suas soluções politicamente difíceis – não foram abordados nos discursos até o final da visita de Lula, quando a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, pediu o microfone e lembrou ao presidente por que estavam na Amazônia este mês. “A Cop30 é um lugar para a gente dizer que o Brasil vai fazer a sua parte, eliminar o desmatamento. E o mundo deve fazer a sua parte, reduzir as emissões de carvão, petróleo e gás.

Isto foi um lembrete de que em Belém, Lula – como muitos líderes mundiais – terá um anjo bom da floresta num ombro e um demónio dos combustíveis fósseis no outro. A questão é o que irá governar.

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