Os cientistas fizeram um grande avanço na luta contra uma doença genética rara que faz com que as crianças envelheçam mais rapidamente do que o normal. A descoberta envolve “genes de longevidade” encontrados em pessoas que vivem vidas excepcionalmente longas, muitas vezes mais de 100 anos. Pesquisadores da Universidade de Bristol e do IRCCS MultiMedica descobriram que esses genes, que ajudam a manter a saúde do coração e dos vasos sanguíneos durante o envelhecimento, poderiam reverter alguns dos danos causados por esta doença devastadora.
O estudo foi publicado em Transdução de sinal e terapia direcionadao primeiro a demonstrar que um gene de um indivíduo de vida longa pode retardar o envelhecimento cardíaco num modelo de progéria. A doença rara e fatal, cientificamente conhecida como Síndrome de Hutchinson-Gilford Progeria (HGPS), faz com que as crianças apresentem sinais de “envelhecimento acelerado”.
A progéria resulta de mutações no gene LMNA que levam à produção de uma proteína prejudicial chamada progerina. Esta proteína perturba o funcionamento normal das células, especialmente no coração e nos vasos sanguíneos. A maioria das crianças afetadas morre de complicações cardíacas na adolescência, mas algumas vivem mais, como Sammy Basso, a pessoa mais velha conhecida com Progéria. Sammy faleceu em 24 de outubro de 2024, aos 28 anos.
As presenilinas prejudicam as células ao desestabilizar o núcleo, o “centro de controle” que governa a atividade celular. Esses danos aceleram o envelhecimento, principalmente no sistema cardiovascular.
Atualmente, o único medicamento aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos EUA é o lonafarnib, que reduz o acúmulo de presenilinas. Os investigadores estão actualmente a testar o lonafarnib em combinação com outro medicamento experimental, a progerinina, para determinar se os dois funcionam melhor juntos.
Testando genes de longevidade em supercentenários
Para explorar novos tratamentos, o Dr. Qiu Yan e o professor Paolo Madeddu do Bristol Heart Institute colaboraram com o professor Annibale Puca do IRCCS MultiMedica na Itália. O seu objectivo é determinar se os genes em pessoas que vivem até uma idade extremamente avançada (supercentenários) podem proteger contra os danos celulares causados pela progéria.
Os cientistas concentraram-se num gene específico, o LAV-BPIFB4, que pesquisas anteriores demonstraram que apoia o funcionamento saudável do coração e dos vasos sanguíneos durante o envelhecimento.
Utilizando ratos geneticamente modificados com progéria, os investigadores observaram problemas cardíacos precoces semelhantes aos observados em crianças com progéria. Após uma única injeção do gene de longevidade LAV-BPIFB4, a função cardíaca dos ratos melhorou, especificamente a forma como o coração relaxou e se encheu de sangue (um processo chamado função diastólica).
A terapia genética também reduziu os danos ao tecido cardíaco (isto é, fibrose) e reduziu o número de células “envelhecidas” no coração. Além disso, promove o crescimento de novos pequenos vasos sanguíneos, melhorando potencialmente a saúde e a recuperação do coração.
A equipe então testou o gene em células humanas de pacientes com progéria. Estas experiências mostram que a introdução de genes de longevidade pode reduzir o envelhecimento celular e a fibrose sem alterar diretamente os níveis de presenilina. Isto sugere que o gene ajuda as células a resistir aos efeitos tóxicos da presenilina, em vez de eliminá-la. Esta abordagem fortalece as defesas naturais do corpo em vez de atacar a própria proteína defeituosa.
Nova abordagem para tratar a progéria e o envelhecimento cardíaco
Qiu Yan, pesquisador honorário do Bristol Heart Institute da Universidade de Bristol, disse: “Nosso estudo identificou o efeito protetor do ‘gene supercentenário’ na disfunção cardíaca prematura em modelos animais e celulares.
“Estes resultados aumentam a esperança de novos tratamentos para a progéria; tratamentos que se baseiam na biologia natural do envelhecimento saudável, em vez de bloquear proteínas defeituosas. Com o tempo, esta abordagem também poderá ajudar a combater doenças cardíacas normais relacionadas com a idade.
“Nosso estudo traz uma nova esperança na luta contra a progéria e sugere que a genética dos supercentenários pode levar a novos tratamentos para o envelhecimento cardíaco prematuro ou acelerado, o que poderia nos ajudar a viver vidas mais longas e saudáveis”.
Olhando para o futuro: A busca por novos tratamentos antienvelhecimento
O professor Annibale Puca, líder do grupo de pesquisa IRCCS MultiMedica e reitor da Faculdade de Medicina da Universidade de Salerno, acrescentou: “Este é o primeiro estudo a mostrar que os genes relacionados à longevidade podem neutralizar os danos cardiovasculares causados pelo envelhecimento prematuro.
“Estes resultados abrem caminho para novas estratégias de tratamento para esta doença rara, que necessita urgentemente de medicamentos cardiovasculares inovadores que possam melhorar a sobrevivência a longo prazo e a qualidade de vida dos pacientes. No futuro, a administração do gene LAV-BPIFB4 através de terapia genética pode ser substituída e/ou complementada por novos métodos de entrega baseados em proteínas ou RNA”.
“Atualmente estamos conduzindo estudos extensos para investigar o potencial do LAV-BPIFB4 para neutralizar a deterioração do sistema cardiovascular e imunológico em diversas condições patológicas, com o objetivo de traduzir esses resultados experimentais em novos produtos biofarmacêuticos”.



