O envelhecimento traz consigo muitos problemas de saúde, entre os quais a perda de memória associada à demência é uma preocupação premente. Com a expectativa de que o número de pessoas afetadas aumente dramaticamente nos próximos anos, os cientistas estão trabalhando para encontrar pistas precoces que ajudem a identificar a condição mais rapidamente. Um estudo recente destaca que certas alterações no líquido espinhal (o líquido claro que envolve e amortece o cérebro e a medula espinhal) podem sinalizar o desenvolvimento precoce de demência.
Cientistas clínicos liderados pelo professor Rüdiger Seitz da Universidade Heinrich Heine em Düsseldorf examinaram mais de perto esta conexão. Seu trabalho na Clínica LVR em Düsseldorf combina testes de fluidos com exercícios mentais projetados para medir a memória e as habilidades de pensamento, muitas vezes chamados de avaliações neuropsicológicas em ambientes clínicos. As descobertas foram publicadas nas prestigiosas revistas médicas Neurological Research and Practice e no Journal of Clinical Medicine.
Quase duzentas pessoas com sinais de demência participaram do estudo. Eles foram divididos em dois grupos com base na duração dos sintomas. Uma descoberta notável se destacou: entre aqueles que notaram alterações recentemente, o líquido espinhal apresentava níveis mais baixos de uma substância chamada beta-amilóide 1-42, que tem sido associada à doença de Alzheimer e é conhecida aqui como proteína cerebral pegajosa, juntamente com pontuações mais baixas em testes de memória. Pessoas com níveis mais elevados desta proteína geralmente apresentam melhor desempenho nestes testes (área vermelha no gráfico). Para pessoas com sintomas de longa duração, estas diferenças são menos pronunciadas (área azul no gráfico). Num grupo de pacientes com demência com diagnóstico de hidrocefalia de pressão normal, os níveis de beta-1-42 amilóide eram baixos e, além de comprometimento da memória, estavam associados a problemas progressivos de marcha e incontinência urinária.
“Nossos resultados confirmam a associação de proteínas cerebrais pegajosas com déficits de memória e apoiam a relevância da hipótese da cascata amilóide para a demência de Alzheimer”, disse o professor Seitz. A hipótese da cascata amilóide é uma ideia amplamente apoiada que sugere que a doença de Alzheimer começa quando a amiloide se acumula no cérebro e causa danos. O professor Seitz também observou que outros marcadores encontrados no líquido espinhal, como a tau fosforilada, um sinal de dano nas células nervosas, e as proporções entre diferentes formas de beta-amilóide demonstraram estar associadas a dificuldades de pensamento. No entanto, nenhuma está tão intimamente ligada a problemas de memória como as proteínas cerebrais pegajosas. Outras substâncias testadas, como a proteína tau total, a enolase específica de neurônios (uma molécula que aparece quando as células nervosas são lesionadas) e a S100B, uma proteína associada à inflamação cerebral, não mostraram padrões úteis.
É importante que os médicos reconheçam esses padrões. Se a proteína cerebral pegajosa puder apontar precocemente para problemas de memória, poderá ser uma ferramenta útil na detecção de demência antes que ela piore. A equipe do professor Seitz também descobriu que as habilidades relacionadas à compreensão do espaço e da forma, que também são afetadas pela demência, não mostraram uma ligação tão forte com esta proteína. Isto significa que a memória e o pensamento visual podem ser afetados por diferentes processos cerebrais.
O tempo é fundamental. Testar proteínas cerebrais pegajosas logo no início, especialmente nos meses após a detecção dos problemas de memória, mostrou os resultados mais claros. Isto apoia a ideia de que as mudanças biológicas no cérebro começam antes que ocorra uma perda grave de memória. O professor Seitz concluiu: “Este padrão é consistente com a ideia de que os processos neurodegenerativos são mais ativos antes do início dos sintomas cognitivos”. Os processos neurodegenerativos referem-se à degradação lenta e eventual perda de células nervosas no cérebro.
Compreender como os marcadores no sangue ou no líquido espinhal se relacionam com o pensamento e a memória pode ajudar a fornecer uma imagem mais clara de como a demência se desenvolve. A descoberta desta ligação sugere que proteínas cerebrais pegajosas podem ajudar a detectar a demência mais cedo. “Uma vez que a associação mais forte foi encontrada nas fases iniciais da doença, esta é também uma boa notícia para possíveis tratamentos para a demência”, observou o professor Seitz, destacando que alterações nesta proteína-alvo podem influenciar dificuldades subsequentes na recordação e reconhecimento de palavras. À medida que a investigação médica continua a explorar as alterações subjacentes à doença de Alzheimer, a investigação do Professor Seitz e dos seus colegas poderá ajudar a desenvolver melhores formas de detectar e tratar a doença mais cedo e de forma mais eficaz.
Referências de periódicos
Klemke LL, Müller-Schmitz K., Kolman A., Seitz RJ “Evolução da neurodegeneração em pacientes com hidrocefalia de pressão normal: um estudo de acompanhamento em um único centro.” Pesquisa e prática neurológica, 2023;5:52. Número digital: https://doi.org/10.1186/s42466-023-00272-6
Römer M., Lange-Asschenfeldt C., Müller-Schmitz K., Seitz RJ “Biomarcadores do líquido crebrospinal e anormalidades neuropsicológicas na demência: um estudo unicêntrico de pacientes consecutivos.” 14:710. Número digital: https://doi.org/10.3390/jcm14030710



