A pesquisa sobre dependência há muito se concentra na vulnerabilidade para entender por que certas pessoas são mais suscetíveis aos efeitos dos transtornos por uso de substâncias (TUS). No entanto, uma recente revisão crítica da literatura realizada pela Dra. Alexandra Rogers e pela Professora Frances Leslie, da Universidade da Califórnia, Irvine, sugere que uma mudança de paradigma é necessária. Os pesquisadores acreditam que a área não deveria se concentrar apenas em por que as pessoas se tornam viciadas, mas deveria explorar por que muitas pessoas não se tornam viciadas mesmo quando expostas às mesmas substâncias viciantes. As suas descobertas, publicadas na revista Addiction Neuroscience, defendem uma investigação mais profunda sobre os mecanismos de resiliência, o que poderia abrir caminho para tratamentos de dependência mais eficazes.
Os transtornos por abuso de substâncias têm atormentado a sociedade há séculos, mas a maioria dos usuários de drogas não desenvolve dependência total. Na verdade, estudos mostram que apenas 5-30% dos consumidores regulares de drogas cumprem os critérios para TUS. Essa diferença destaca a necessidade de estudar fatores neurobiológicos e psicológicos que previnam o vício. Rogers e Leslie observaram que, embora a neurobiologia da vulnerabilidade tenha sido extensivamente estudada, a resiliência – a capacidade de manter o funcionamento normal apesar da exposição a substâncias viciantes – ainda é pouco estudada.
Os investigadores acreditam que os mecanismos de resiliência são diferentes daqueles de vulnerabilidade. “A resiliência é mais do que apenas a ausência de vulnerabilidade. Envolve mudanças compensatórias positivas no cérebro que permitem aos indivíduos lidar com os desafios do uso de drogas”, explica o Dr. Rogers. Essa perspectiva muda o foco da tentativa de reverter as alterações cerebrais relacionadas ao vício para a identificação e melhoria dos mecanismos naturais de recuperação do cérebro.
O seu estudo baseia-se em evidências do modelo de stress, no qual o conceito de resiliência é investigado de forma mais aprofundada. Nestes modelos, certos indivíduos exibem uma tolerância extraordinária ao stress e evitam os resultados negativos tipicamente associados a ele. Mecanismos de proteção semelhantes podem desempenhar um papel na recuperação do vício. Por exemplo, a investigação sugere que indivíduos resilientes podem apresentar neurogénese melhorada em certas regiões do cérebro ou possuir variantes genéticas específicas que protegem contra o vício.
O Dr. Rogers e o Professor Leslie também destacaram o potencial do estudo da resiliência para identificar novos alvos terapêuticos. Os tratamentos tradicionais contra a dependência muitas vezes se concentram na redução dos desejos ou dos sintomas de abstinência, mas não abordam a resiliência subjacente que impede a maioria dos usuários de se tornarem viciados. Ao compreender como funciona a resiliência, os investigadores podem desenvolver tratamentos que melhorem estes factores de protecção, proporcionando potencialmente opções de tratamento mais fortes e duradouras.
A revisão crítica da literatura destaca a importância de encarar a dependência como uma “doença cerebral” e considerá-la num quadro mais amplo que inclui vulnerabilidade e resiliência. Esta dupla abordagem poderia levar a uma compreensão mais abrangente da dependência e, em última análise, a tratamentos mais eficazes. “A pesquisa futura deve ter como objetivo revelar toda a gama de respostas às substâncias que causam dependência, e não apenas as respostas patológicas”, disse o professor Leslie. “Ao fazer isso, podemos apoiar melhor as pessoas em risco e ajudar mais pessoas a abandonar o vício”.
O apelo do Dr. Rogers e da Professora Leslie para um foco renovado na resiliência na investigação da dependência é oportuno à luz da actual crise dos opiáceos e do aumento das taxas de dependência a nível mundial. O seu trabalho sugere que uma abordagem mais equilibrada que considere a vulnerabilidade e a resiliência poderia levar a avanços na forma como tratamos e prevenimos a dependência.
Referência do diário
Rogers, A. e Leslie, F. (2024). “Os neurobiólogos do vício deveriam estudar a resiliência.” Neurociência do Vício, 11, 100152. doi: https://doi.org/10.1016/j.addicn.2024.100152
Sobre o autor
Alexandra Rogers é escritor médico e neurobiólogo com vasta experiência em farmacologia e neurobiologia. Ela completou seu doutorado em Ciências Farmacológicas na Universidade da Califórnia, Irvine, e atuou como NIH T32 e Vertex Pharmaceuticals Investigator. Iniciou a sua carreira nas ciências cognitivas, estudando os efeitos da música na recuperação da memória, passando pela degeneração da retina e o papel da glia na recuperação de lesões na medula espinal, até à identificação e caracterização de substratos neuronais de resiliência ao vício. Atualmente, Alexandra trabalha como redatora médica freelance trabalhando com instituições acadêmicas e empresas farmacêuticas industriais. Ela é especializada no desenvolvimento e refinamento de documentação científica, incluindo publicações revisadas por pares e pedidos de subsídios para agências nacionais como NIH e HHMI.
Alexandra é uma defensora apaixonada da orientação e do desenvolvimento profissional, tendo sido cofundadora de um programa de mentoria entre pares na UC Irvine e de vários programas no seu grupo de pesquisa de pós-graduação para apoiar a excelência na graduação. Alexandra mora em São Francisco com o companheiro e o gato. Ela gosta de fazer caminhadas, jardinagem e ler, encontrando inspiração nas infinitas possibilidades da ciência e da imaginação.



