O novo surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC), onde já se suspeita que uma estirpe rara tenha causado mais de 130 mortes, desencadeou uma busca internacional por vacinas e tratamentos que possam ser rapidamente testados e administrados para travar esta crise sanitária.
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Se este é o 17º surto deste vírus, que matou entre um terço e metade das pessoas infectadas na República Democrática do Congo, este é apenas o terceiro surto causado pela estirpe Bundibugyo, para a qual não existe vacina nem tratamento aprovado.
No entanto, estão a ser estudados vários candidatos a vacinas e tratamentos que ainda não foram testados em humanos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que está disposta a examinar as ferramentas existentes, incluindo a vacina chamada Ervebo, que tem como alvo a estirpe mais comum do Ébola, conhecida no Zaire, e já está a ser implementada em vários países.
O virologista Thomas Geisbert, que esteve envolvido no desenvolvimento do Ervebo, concebeu uma vacina semelhante, de dose única, dirigida à estirpe Bundibugyo. Testes em macacos mostraram que proporcionava proteção. Mas o cientista lembra à AFP que testar vacinas em humanos e produzir doses em larga escala é um processo longo e caro.
Apesar do raro problema, “os grandes grupos farmacêuticos não estão dispostos a começar porque não é lucrativo”, segundo um pesquisador da Universidade do Texas em Galveston (Estados Unidos).
Desde que um estudo sobre uma vacina candidata contra a cepa Bundibugyo foi publicado pela primeira vez em 2013, “o projeto permaneceu paralisado”, diz ele.
Em apenas alguns meses?
Ele fez o mesmo em 2005, quando publicou pela primeira vez os resultados da pesquisa sobre o que viria a ser a vacina Ervebo.
A vacina candidata só ganhou atenção em 2014, durante o maior surto de Ébola (11.300 mortes na África Ocidental). Cerca de nove meses depois, o grupo norte-americano MSD lançou as primeiras doses de Ervebo, que estudos mostram que confere 84% de proteção contra a estirpe do Zaire.
Thomas Geisbert espera que “algo semelhante” aconteça contra a estirpe Bundibugyo e prevê que isso poderá ser possível dentro de seis ou sete meses.
Os dados independentes sobre espécies fora do Zaire, como o Bundibugyo, têm sido até agora “limitados, nem nos estudos humanos nem na avaliação do Ervebo”, disse um porta-voz do MSD à AFP.
À medida que a extensão da actual epidemia começa a emergir, um estudo de uma nova vacina candidata foi publicado segunda-feira no Journal of the American Academy of Sciences (PNAS).
Investigadores chineses utilizaram a tecnologia de ARN mensageiro (ARNm), que ficou famosa desde o surto de COVID-19, para conceber a sua vacina que visa as três principais estirpes do Ébola, incluindo o Bundibugyo.
Embora o virologista Connor Bamford, da Queen’s University, em Belfast, acolha favoravelmente esta iniciativa, ele enfatiza que a produção de vacinas mRNA é cara e deve ser mantida fria. “Isso poderia limitar o seu uso na África”, disse ele à AFP.
E Geisbert observa que esta vacina só foi testada em ratos, muitas vezes tornando os resultados intransferíveis para macacos ou mesmo humanos.
“Dia e Noite”
Cientistas da Universidade de Oxford disseram à AFP que estavam “trabalhando duro” com o Serum Institute of India, o maior fabricante mundial de vacinas, na vacina de vetor viral chamada ChAdOx1 BDBV, embora não pudessem fornecer um cronograma exato.
Além destas potenciais vacinas, um ensaio clínico patrocinado pela Organização Mundial de Saúde envolvendo dois tratamentos experimentais contra a estirpe Bundibugyo poderá começar em breve nas áreas afectadas pelo actual surto.
“Estamos muito bem posicionados para iniciar rapidamente os ensaios clínicos”, disse Amanda Rojek, pesquisadora da Universidade de Oxford, à revista Nature na segunda-feira. “Trabalhamos dia e noite.”
Um desses tratamentos, um antiviral chamado remdesivir produzido pelo grupo americano Gilead, já foi testado em humanos contra a cepa Zaire, mas não contra Bundibugyo.
Mas durante os testes no seu laboratório, o remdesivir “deu resultados in vitro mais convincentes contra a estirpe Bundibugyo do que contra a Zaire”, segundo Geisbert.
O outro medicamento considerado para ensaio clínico é um anticorpo monoclonal desenvolvido pela Mapp Biopharmaceutical que tem como alvo diferentes cepas de Ebola, incluindo Bundibugyo.
De acordo com um pesquisador da Universidade do Texas, essa droga “maravilhosa” protege efetivamente até mesmo macacos que já estão doentes.
Quaisquer ensaios clínicos em pacientes terão de ser aprovados pelos governos da República Democrática do Congo e do Uganda.



