Um par de araras azuis e douradas visita o apartamento de Mabilius Carnagon em Caracas.
Manuel Rueda/NPR
ocultar legenda
alternar legenda
Manuel Rueda/NPR
CARACAS, Venezuela – Todos os dias, quando o sol se põe, cerca de uma dúzia de araras azuis e douradas voam para o apartamento de Karem Guevara.
Pássaros cômicos pousam na janela, gritam e esticam o pescoço, enquanto Guevara alimenta sementes de girassol e bananas partidas.
“Essas aves fazem parte da minha família”, disse Guevara, um pequeno empresário que alimenta as araras há cinco anos no conforto de seu quarto. Ele diz que as araras às vezes carregam seus filhotes, um sinal de que confiam em seu amigo humano. “Meu coração está cheio de alegria”, disse Guevara.
As araras azuis e douradas não são nativas de Caracas. Mas nas últimas duas décadas, o seu número disparou na capital da Venezuela, com centenas de pássaros a voar livremente pela cidade e os residentes a exibirem penas coloridas e cantos distintos.
Caracas tornou-se um símbolo dos pássaros e formou um vínculo especial com certas pessoas que deixam comida para eles nas varandas ou nos jardins.
Karem Guevara alimenta um grupo de macacos que voou para sua casa em Caracas, Venezuela. As araras visitam Guevara todos os dias enquanto o sol se põe.
Maneul Rueda/NPR
ocultar legenda
alternar legenda
Maneul Rueda/NPR
Mas esta relação única entre humanos e aves exóticas está agora ameaçada, à medida que as autoridades municipais cortam as palmeiras das quais as araras dependem para criar os seus descendentes.
Maria Lourdes Gonzalez, bióloga que estuda araras, afirma que nos próximos anos a população de araras azuis e douradas da cidade poderá ser dizimada.
“Se eu não encontrar um lugar onde elas possam acasalar, não haverá uma nova geração de araras”, disse ele em seu escritório em Simon Bolívar, na Universidade de Caracas.
Gonzalez explicou que as araras só nidificam em uma palmeira chamada chagaramo, ou palmeira real.
E só usam chaguaramos sem folhas, cujos troncos apodrecem e ficam parcialmente escavados pelos insetos.
As autoridades estão arrancando essas velhas palmeiras em vários parques e espaços públicos em diversas áreas públicas, enquanto tentam embelezar a cidade e evitar que troncos podres caiam sobre as pessoas. É um plano que faz sentido do ponto de vista de Gonzalez, mas que ameaça as araras.
“Não existem pássaros que façam ninhos em galhos ou arbustos”, disse Gonzalez. “Eles fazem buracos nos troncos velhos e em Caracas só usam árvores chaguaramo”.
Gonzalez disse que ter menos araras em Caracas não perturbaria o ecossistema local, porque por mais diversas que sejam, essas aves são espécies introduzidas.
Araras espiam pela janela de um apartamento esperando para serem alimentadas, em Caracas, Venezuela. São locais comuns situados nos beirais de edifícios altos ou em pátios.
Ariana Cubillos/AP
ocultar legenda
alternar legenda
Ariana Cubillos/AP
As araras azuis e douradas são nativas da Amazônia e provavelmente foram trazidas para Caracas na década de 1970 por pessoas que as mantinham como animais de estimação em casa.
Ao longo dos anos, muitos proprietários de araras voaram para a cidade.
“As araras são um hobby incrível”, explicou Gonzalez. “Eles são muito grandes e dentro de uma casa – ou de um apartamento – é difícil conviver com um animal que está sempre gritando”.
As aves sobreviveram em Caracas e nas montanhas que cercam a cidade por causa do clima ameno, que são cobertas por árvores que fornecem frutos e sementes às araras.
A palmeira real – espécie introduzida na época colonial em Caracas por sua elegância – serviu de local de nidificação para as araras. A falta de predadores naturais, como gaviões-real ou macacos que roubam ovos, facilitou a reprodução das araras.
Caracas e araras azuis douradas nidificam entre velhas palmeiras cujos troncos foram escavados por insetos.
Manuel Rueda/NPR
ocultar legenda
alternar legenda
Manuel Rueda/NPR
Há dez anos, quando as araras azuis e douradas já estavam em Caracas, Gonzalez realizou um censo da população local de araras.
Ele descobriu que a cidade tinha cerca de 300 araras azuis e douradas. Agora, Gonzalez diz que quer realizar uma nova pesquisa para descobrir como a remoção de palmeiras antigas afeta as aves.
“Espero que a população diminua”, disse Gonzalez. “Ou podem até se espalhar, para que os pássaros procurem novos lugares onde possam acasalar.”
Gonzalez não tem financiamento da universidade, nem mesmo do governo. E com o salário de um professor público daquela universidade de US$ 160 mensais, fica difícil para ele andar de moto pela cidade, contando os pássaros azuis e dourados, porque a gasolina se tornou desnecessária.
Por isso, nessa época, ele diz que quer confiar em voluntários para contar araras pela cidade. “O método é diferente do primeiro censo, mas acredito que seja necessário”, disse o professor de biologia.
Mabel Cornago, fotógrafa que alimenta araras há 15 anos, disse que seria “terrível” reduzir a população de araras locais, porque as aves se tornaram “um símbolo” da capital venezuelana.
Cornago diz que, na última década, tirou mais de 40 mil fotos de araras voando pela cidade, empoleiradas em árvores e nas varandas e telhados das pessoas. Todo mês ele vende dezenas de araras com as montanhas mais alegres de Caracas ao fundo, para doar lojas que atendem venezuelanos que hoje vivem no exterior e têm saudades da memória de seu país.
“Pois para mim esses pássaros são como anjos”, disse Cornago. “Quem veio até nós em tempos difíceis.”



