Pesquisadores no Brasil encontraram novas evidências de que o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons (IBP) pode interferir na capacidade do corpo de absorver nutrientes importantes. O estudo foi conduzido por cientistas da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC). Os IBPs incluem medicamentos amplamente utilizados, como omeprazol (Prilosec), pantoprazol (Protonix) e esomeprazol (Nexium), que são comumente usados para tratar úlceras, gastrite e refluxo ácido.
Embora esses medicamentos sejam eficazes na redução da acidez estomacal, usá-los por mais tempo do que o recomendado pelo seu médico pode causar deficiências nutricionais, incluindo anemia, e afetar negativamente a saúde óssea. Os resultados da pesquisa foram publicados em ACS Ômega.
Desequilíbrios minerais relacionados ao omeprazol
Com financiamento da FAPESP, a equipe estudou como o uso continuado de omeprazol afetou a absorção de minerais essenciais em ratos. Eles se concentram em ferro, cálcio, zinco, magnésio, cobre e potássio. Houve mudanças visíveis na forma como esses minerais foram distribuídos nos animais tratados com drogas.
Este medicamento parece causar o acúmulo de certos minerais no estômago, além de causar desequilíbrios no fígado e no baço. Os exames de sangue mostraram níveis mais elevados de cálcio e níveis mais baixos de ferro, alterações que têm sido associadas a um risco aumentado de osteoporose e anemia. Os pesquisadores também observaram mudanças significativas nas células do sistema imunológico.
Para realizar o experimento, ratos adultos foram divididos em dois grupos: um grupo controle e um grupo que recebeu omeprazol. Os períodos de tratamento duraram 10, 30 e 60 dias para refletir durações variadas de uso a longo prazo em humanos.
O professor Angerson Nogueira do Nascimento, da UNIFESP, que coordenou o estudo em colaboração com Fernando Fonseca, da FMABC, disse: “O achado mais preocupante é um aumento significativo nos níveis de cálcio no sangue dos animais, o que pode indicar um desequilíbrio na remoção de minerais dos ossos e um risco futuro de osteoporose.
Como os inibidores da bomba de prótons afetam o corpo
Medicamentos como omeprazol, pantoprazol e esomeprazol atuam bloqueando as enzimas H+, K+ e ATP (também chamadas de bombas de prótons). Esta enzima controla a etapa final da produção de ácido clorídrico no estômago. Ao suprimir o ácido estomacal, esses medicamentos podem aliviar os sintomas de úlceras, gastrite e refluxo.
No entanto, o ácido estomacal também desempenha um papel fundamental em ajudar o corpo a absorver certos nutrientes. Quando a produção de ácido é cronicamente reduzida, a absorção de minerais que dependem de um ambiente ácido pode ser afetada.
O uso excessivo e o acesso sem receita levantam preocupações
O omeprazol está no mercado há mais de 30 anos e é usado com frequência, às vezes por meses ou até anos, sem supervisão médica. “Não se trata de demonizar esse medicamento, ele é eficaz em diversas doenças estomacais. O problema é que seu uso não é importante, mesmo sintomas leves, como azia, podem durar meses ou até anos. Seus efeitos colaterais não devem ser ignorados”, alerta Andréa Santana de Brito, pesquisadora da Unifesp. Essa pesquisa serviu de base para sua pesquisa de mestrado.
Ela observou que as preocupações podem se intensificar após as novas regulamentações da agência reguladora de saúde do Brasil (ANVISA), que autorizou a venda sem prescrição médica de omeprazol 20 mg em novembro de 2025. “Essa conveniência pode incentivar a automedicação e o uso continuado, ignorando as recomendações para limitar o tratamento a 14 dias”, alertou ela.
Posicionamento da ANVISA sobre o medicamento de venda livre omeprazol
A ANVISA acredita que a disponibilização do omeprazol 20 mg sem receita médica visa promover o uso responsável. A agência descreveu a medida como “um passo em frente na racionalização da sua utilização e na promoção da sua utilização segura e responsável”.
“Ao limitar a duração do tratamento a no máximo 14 dias, reforçamos a mensagem de que o medicamento só deve ser usado para alívio de sintomas leves e temporários e incentivamos os pacientes a procurarem avaliação médica caso os sintomas persistam ou retornem”, disse a ANVISA em nota à redação da Agência FAPESP. “Diretrizes claras na bula e no rótulo, como datas de uso, sinais de alerta e interações medicamentosas para os consumidores, podem auxiliar os consumidores na tomada de decisões”.
A agência também disse que embalagens contendo suprimentos para mais de 14 dias não devem ser vendidas sem receita médica.
O impacto pode se estender a outros PPIs
Embora a experiência se tenha centrado no omeprazol, os investigadores sublinharam que os novos medicamentos da mesma classe, incluindo o pantoprazol e o esomeprazol, funcionam todos de forma semelhante. Brito disse que os medicamentos podem ter um impacto mais forte porque os seus efeitos são mais fortes e duram mais tempo.
“Nesses casos, os efeitos podem ser mais intensos porque essas moléculas têm efeito mais potente e duradouro. Algumas demoram mais de cinco dias para formar uma nova bomba de prótons, enquanto o omeprazol leva cerca de um a três dias, o que pode agravar os efeitos colaterais”, explica.
A equipe observou que foi reconhecida uma ligação entre os inibidores da bomba de prótons e a redução da absorção de nutrientes. No entanto, este estudo expande esta compreensão ao examinar outros minerais, incluindo magnésio e zinco. “Ressaltamos a importância do uso racional desses medicamentos e até avaliamos a necessidade de medicamentos complementares em alguns casos. Porém, é necessário acompanhamento médico para avaliar cada caso individualmente”, disse Nogueira.



