Sob o sol escaldante do Nordeste do Brasil, um grupo de meninos levanta terra enquanto corre por uma bola de futebol. Todos menos um, Gugu, cuja energia vai para outro lugar: um número de dança pomposo à beira do campo improvisado. “O Mundo de Gugu”, de Allan Deberton, com estreia mundial no Festival de Cinema de Berlim, segue o garoto titular para fornecer um olhar comovente sobre as dificuldades da infância para aqueles que não se adaptam bem.
O terno drama recruta alguns pesos pesados ao lado do estreante Yugi Gomes como Gugu. A estrela de “Madame Satã”, Lázaro Ramos, interpreta o pai do menino, enquanto a veterana Teca Pereira (“Amor Divino”) interpreta a glamorosa avó de Gugu, Dilma, cuja vida social agitada é dolorosamente perturbada pela rápida escalada da demência. Carlos Francisco, conhecido por “O Agente Secreto”, também desempenha um pequeno papel no caso de Dilma. Confira abaixo um clipe exclusivo do filme.
Em conversa com diversidade Antes da estreia do filme em Berlim, Deberton disse que o filme nasceu de uma “memória muito pessoal” do seu roteirista André Araújo. A dupla já trabalhou junta na estreia de Deberton na direção, “Pacarrete”, sobre uma professora de dança aposentada que sonha em estrelar um grande e ousado espetáculo de dança diante de toda a sua pequena cidade.
“Rapidamente me encontrei no mesmo espaço emocional”, lembra ele sobre os estágios iniciais do processo criativo. “Nós dois viemos da mesma cidade natal, nascemos em Russas, no interior do Ceará, no Nordeste do Brasil, e fomos ambos crianças ‘diferentes’, ‘deslocadas’, criadas pelas nossas avós durante grande parte da nossa infância. A energia do filme vem dessas memórias de afeto e vulnerabilidade, desse espaço onde o cuidado pode ser tanto proteção quanto o medo de perdê-lo.”
A dupla de roteiristas levou seu roteiro para vários laboratórios de redação e acabou fazendo parceria com a Biônica Films como parte da bem-sucedida iniciativa de incubadora do Projeto Paradiso, que também produziu outra estreia brasileira em Berlim, Nosso Segredo, de Grace Passô.
Escolher a criança certa para o papel de Gugu foi fundamental para o sucesso do processo, e Deberton atendeu mais de 600 crianças durante o extenso processo de seleção. “Procurávamos uma criança com uma combinação rara: fragilidade e força, doçura e uma energia interior muito vibrante. Yuri Gomes trouxe tudo isso.
O diretor acrescenta que ter Pereira foi um “sonho” desde o início. “A avó tinha que ser um universo inteiro”, acrescenta, lembrando o quão inesquecível foi para ele a “presença contagiante” do ator desde que a viu no palco durante uma produção brasileira de “Vanya e Sonia e Masha e Spike”. Quanto a Ramos, Deberton diz que sua presença no filme veio de “forma surpreendente”.
“Quando viu ‘Pacarrete’ na estreia brasileira, ele me disse que gostaria de trabalharmos juntos”, enfatiza. “Ele é um ícone brasileiro, sou um grande fã e seu interesse foi como um presente. O personagem Batista foi criado especificamente para ele. Sabíamos que Lázaro poderia torná-lo complexo, humano, contraditório e caracterizado pelo medo e pela pressão social.”
Ramos conta diversidade Ele foi atraído por Deberton como colaborador criativo por causa da “perspectiva sensível” que exibia como diretor. Quanto a “O Mundo de Gugu”, o ator sente que “ressoa” com outros grandes filmes da sua carreira, como “Madame Satã”, de Karim Aïnouz, e “Cidade Baixa”, de Sérgio Machado, em que protagonizou ao lado do seu melhor amigo e colaborador de longa data, Wagner Moura. “Aqui interpreto uma personagem que desenvolve uma relação terna com a criança protagonista, alguém que tem muito a dizer ao mundo. É o cinema humanista, o tipo que mais adoro.”
Quando questionado sobre como atuar na perspectiva de um veterano ao lado de um jovem recém-chegado, Ramos rapidamente elogia Gomes, chamando-o de “extraordinariamente talentoso”. “Vem de um projeto baiano que me é muito caro, o Projeto Axé, que há anos leva arte para crianças desta região de Salvador”, completa. “Quando ele veio para o filme, ele sentiu identificação e rejeição ao personagem, e foi fascinante assistir. Acho que são raros os momentos em que o personagem escolhe seu ator. E ficou claro para mim desde o início que esse personagem queria ser interpretado por Yuri.
“Ordem Executiva”, cortesia da Lereby Productions
Quanto a ele, ao ver o sucesso de seu amigo e colaborador de longa data Moura, que recentemente se tornou o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Ator por “O Agente Secreto”, Ramos diz que sente “um tremendo sentimento de orgulho”.
Esse orgulho se estende também ao diretor Kleber Mendonça Filho e a outros importantes representantes do cinema nordestino brasileiro, como Gabriel Mascaro e Karim Aïnouz, a quem chama de “gente que realmente pensa na linguagem do cinema”. “Depois da pandemia, para sobreviver no mercado, houve uma tendência de fazer filmes que não explorassem realmente qual é a linguagem do cinema brasileiro ou quais histórias queremos contar”, acrescenta o ator, que também é diretor de filmes de sucesso como “Ordem Executiva”.
“Estou feliz pelo meu amigo Wagner, com quem fiz tantos filmes, e também pelo Kleber”, continua. “Tenho a sensação de que 2026 e 2027 serão anos muito bonitos. Filmes que atraem o público mas permanecem firmemente ancorados na sua identidade são um caminho muito importante para o nosso cinema e espero que continue assim.
Falando em futuro: Ramos e Deberton já estão trabalhando em sequências como diretores. O diretor de “O Mundo de Gugu” prepara “A Adoção” enquanto Ramos trabalha em um projeto que ainda está em segredo – mas diz que parece “certo” estar em Berlim “para reunir inspiração para o que vem a seguir”.
“’A Adoção’ é um projeto muito íntimo para mim”, diz Deberton. “Sou pai adotivo e na época era pai solteiro adotando um filho. Foi uma experiência que me mudou profundamente, e também mudou Marcelo, meu companheiro, que também se tornou pai.
“O Mundo do Gugu” é produzido pela Biônica Filmes e Deberton Filmes. A M-Appeal cuida das vendas globais.



