Existem quatro computadores na mesa alta. Há quase um mês que Esmeralda, Kevin, Carlos e o irmão mais velho não vão à escola. Por medo de grandes operações policiais de imigração que atravessam Minneapolis (norte), a família está confinada em seu apartamento e segue seu percurso à distância.
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Desde o dia em que agentes federais invadiram o colégio de sua filha, Abril (nomes alterados para garantir a privacidade da família) decidiu que seus quatro filhos não sairão mais.
Kevin, de 12 anos, o mais falante dos irmãos, disse à AFP: “Se eu sair, não será além do corredor (do prédio) onde minha avó mora, no apartamento em frente”.
Soube-se que a família veio do México há cerca de um ano e meio e o seu processo de asilo continuava.
Nesta manhã de fevereiro, como em todos os outros dias da semana, “acordamos, temos aulas, e temos mais aulas.
O mais velho, dois anos mais velho que ele e para quem o encarceramento foi mais difícil, não saiu da cama naquele dia.
– “Por que ?” –
O que Kevin mais sente falta são de “amigos e professores”. “Já se passaram sete semanas, não, três, eu acho… É muito tempo”, ela sussurra. “Podemos nos ver, mas não estamos realmente juntos. Estar em uma videoconferência não é a mesma coisa que estar com eles.”
Na escola, “Podemos ir ao parque lá fora”, murmura o mais novo, Carlos, com olhos sonolentos.
“No começo eles aceitaram bem, parecia um feriado, mas o tempo passou, passou, passou…” suspira a mãe, que tem trinta e poucos anos.
“É difícil para eles porque estão habituados a estar perto dos amigos da escola”, explica o seu pai, Rigoberto, um mecânico de 38 anos que não vai à sua oficina há mais de um mês, apesar de estar apenas a uma rua de distância.
Seus filhos aumentam o número de perguntas. “Por que isso está acontecendo? Por que estamos nos escondendo se não fazemos nada de errado? Quanto tempo isso vai durar?” ele diz.
A vida cotidiana perturbada não termina na escola. Desligamos a televisão e dizemos às crianças: “Não façam barulho”, porque temos medo de que “quando descobrirmos que (a polícia) está por perto, eles venham e batam na porta”, disse Abril. “Nós os silenciamos, nós os restringimos, eles riem, e mesmo para isso temos que dizer-lhes para pararem. Eles nem sequer são livres para rir.”
– “Tome sorvete” –
“Eu não durmo à noite”, ele admite.
“Eu durmo por volta das 3 horas agora. Às vezes eu ficava acordado até de manhã. Era como se eu estivesse de olho nas crianças à noite, e durante o dia eu dormia um pouco porque sabia que o pai delas estava de olho nelas”, conta.
Abril, que trabalha como faxineira, vive reclusa há dois meses. Tanto tempo que leva alguns segundos para lembrar a última vez que ele pisou lá fora. Era 3 de dezembro.
“Eu nem saio para levar o lixo para fora. Poderíamos ter aberto essa cortina no começo”, disse ele da cozinha onde preparava o pão de milho. “Está completamente fechado há um mês e uma semana. Estão todos fechados.”
As necessidades da família são atendidas por uma vizinhança muito solidária, mas “tenho vergonha de perguntar de novo”, admite.
O marido está enfraquecido porque não consegue cumprir o seu papel de “chefe da família”.
Como eles veem o futuro? “Nunca mais será o mesmo”, imagina. “O medo permanecerá. Tenha cuidado, fique alerta. Levará algum tempo para se acostumar com a vida diária.”
O que a Abril mais quer? “Vá à igreja e leve as crianças para tomar sorvete.”
Enquanto isso, geralmente são a gatinha e o cachorrinho da família, Mia e Maci, que os fazem sorrir novamente.









