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Uma rede de informação conectando venezuelanos em tempos incertos

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No começo Na manhã de sábado, 3 de janeiro, o estrondo das bombas caindo do céu anunciou o ataque militar dos EUA à Venezuela e acordou os moradores de La Carlota, em Caracas, perto da base aérea que foi alvo da Operação Destruição Absoluta.

Marina G pensou pela primeira vez que havia um terremoto quando o chão, as paredes e as janelas de seu apartamento no segundo andar tremeram. Seu gato se arrastou e se escondeu por horas, e os cachorros dos vizinhos começaram a latir incessantemente. Mas o zumbido estranho e contínuo dos motores (que mais tarde descobrimos serem aviões militares voando baixo sobre a cidade) e a visão de cadetes de camisetas e shorts fugindo do quartel-general do Exército eram sinais de que não se tratava de um terremoto.

Marina não podia contar com os meios de comunicação habituais, facilmente acessíveis na maioria dos outros países, para obter mais informações. Ela nem sequer ligou a televisão ou o rádio para obter informações sobre os ataques que começaram simultaneamente contra 11 instalações militares em Caracas e em três outros estados. A estação de televisão estatal Venezolana de Televisión (VTV) transmitia reportagens sobre a visita do Ministro da Cultura à Rússia enquanto o ataque decorria. Mas seu telefone ainda tinha sinal e ela começou a receber dezenas de mensagens no WhatsApp. “Eles estão bombardeando Caracas!”

Não havia nenhuma equipe de repórteres independentes disponíveis para registrar o que acontecia nas ruas nos momentos mais sombrios daquela manhã caótica. Após anos de assédio, censura e prisão de jornalistas por parte do governo, redações vazias, recursos comprometidos e uma total falta de segurança tornaram impossível manter o público informado à medida que a crise se desenrolava.

Os receios sentidos pelos jornalistas foram partilhados por muitos venezuelanos. Era o medo da detenção arbitrária, de ser preso sem justa causa, de ser torturado e roubado. Este medo levou os cidadãos venezuelanos a adotarem a proteção digital para sobreviver. Eles aprenderam como limitar bate-papos, mover material confidencial para pastas ocultas e excluir automaticamente mensagens “ameaçadoras”. Se possível, deixam os telefones em casa. Se precisar levar seu telefone com você, exclua fotos, adesivos ou memes que possam ser interpretados como subversivos antes de sair de casa. Mas este estado de paranóia em massa permitiu que os venezuelanos se mantivessem informados e não sucumbissem à ditadura.

Foram principalmente cidadãos comuns que criaram esta rede de informação. Pouco depois da queda das bombas, em 3 de janeiro, começaram a circular os primeiros vídeos, gravados por pessoas que presenciaram a explosão de suas janelas, varandas ou na praia. Algumas pessoas ainda estavam comemorando o Ano Novo. Até mesmo os caminhantes que acamparam no topo do Cerro Avila, no Parque Nacional Wairara Repano, conseguiram tirar fotos panorâmicas da explosão da bomba no Vale de Caracas. Logo depois, redes internacionais confirmaram a notícia.

Internamente, as conexões são muito mais complicadas. Em San Rafael de Mucuchíes, uma pacata cidade dos Andes, no estado de Mérida, um grupo de caminhantes tentava acompanhar o ritmo frenético dos acontecimentos a 10.300 pés acima do nível do mar e com acesso intermitente à Internet. Eles souberam da notícia por meio de ligações telefônicas de operadoras como Movistar (Telefónica) e Digitel, e não por meio do aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp. Eles também superaram o desafio dos desertos de informação usando uma antena portátil de Internet via satélite Starlink que um dos viajantes trazia na bagagem. Durante a crise, os serviços desenvolvidos pela SpaceX foram fornecidos gratuitamente aos venezuelanos.

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