Um novo estudo publicado em ecologia natural e evolução A pesquisa mostra que as florestas tropicais da Amazônia e dos Andes sofreram grandes mudanças na diversidade de árvores nas últimas décadas, à medida que as condições ambientais globais continuam a mudar.
O estudo, liderado pelo Dr. Belen Fadrique, da Universidade de Liverpool, foi baseado em 40 anos de registros detalhados de árvores. Os dados, recolhidos por centenas de botânicos e ecologistas que trabalham em parcelas florestais de longo prazo, fornecem uma das avaliações mais abrangentes até agora das mudanças na diversidade de árvores em algumas das florestas biologicamente mais ricas da Terra.
A estabilidade geral mascara declínios e crescimento regionais
Quando os pesquisadores analisaram a diversidade de árvores na América do Sul, descobriram que a riqueza geral de espécies permaneceu praticamente estável. No entanto, este aparente equilíbrio mascara fortes diferenças regionais.
Em diversas áreas grandes, a diversidade de árvores diminuiu ao longo do tempo, enquanto em outras áreas o número de espécies aumentou. Estes padrões contrastantes sugerem que as alterações climáticas estão a afectar as florestas tropicais de forma desigual, em vez de produzirem resultados uniformes.
Florestas quentes e secas levam à perda de espécies
A análise mostra que as florestas expostas a temperaturas mais elevadas, condições de seca e mudanças sazonais mais fortes têm maior probabilidade de perder espécies de árvores. Em contrapartida, florestas com ecossistemas mais saudáveis e condições naturalmente dinâmicas tendem a ganhar espécies no mesmo período.
A perda de florestas foi maior na região central dos Andes, no Escudo das Guianas e no centro-leste da Amazônia, onde foram observados declínios na maioria dos locais de monitoramento de longo prazo. Entretanto, as regiões do norte dos Andes e da Amazónia ocidental registaram aumentos na abundância de espécies de árvores na maioria das parcelas.
Embora o aumento das temperaturas tenha efeitos amplos na diversidade das árvores, o estudo concluiu que as precipitações e os padrões sazonais de precipitação desempenham um papel fundamental na definição destas tendências regionais.
Norte dos Andes se torna um potencial refúgio climático
Uma das descobertas mais importantes foi a identificação do norte dos Andes como um possível “refúgio” para espécies de árvores afetadas pelas mudanças climáticas. À medida que as condições ambientais se deterioram noutras áreas, a área pode servir de refúgio para espécies deslocadas da floresta circundante.
A equipe de pesquisa analisou dados da América do Sul tropical, região que abriga mais de 20 mil espécies de árvores.
O seu trabalho abrange 10 países e inclui 406 parcelas florísticas de longo prazo medidas repetidamente desde as décadas de 1970 e 1980. Estes registos raros e consistentes permitem aos cientistas acompanhar as mudanças na riqueza de espécies de árvores ao longo do tempo e identificar, pela primeira vez a esta escala, os principais factores ambientais que impulsionam essas mudanças.
Como as espécies de plantas estão respondendo ao aquecimento climático
As espécies de plantas têm formas limitadas de lidar com as alterações climáticas. Podem mudar a sua distribuição geográfica à medida que as condições mudam, ou podem adaptar-se ao novo ambiente em que cresceram. Quando uma espécie é incapaz de se mover ou de se adaptar, a sua população pode diminuir, aumentando o risco de extinção.
Dr. Fadrique é Dorothy Hodgkin Fellow da Royal Society e do Departamento de Geografia e Planejamento da Universidade de Liverpool. Ela é a principal autora do estudo, que conduziu enquanto atuava como Marie Curie Fellow na Universidade de Leeds.
“Nosso trabalho de avaliação das respostas das espécies às mudanças climáticas mostra mudanças profundas na composição florestal e na riqueza de espécies em múltiplas escalas”, disse ela.
Flavia Costa, professora do INPA (Instituto Nacional de Botânica da Amazônia) do Brasil, acrescentou: “Este estudo destaca o impacto desigual das mudanças climáticas na diversidade de árvores em diferentes florestas tropicais, enfatizando a necessidade de monitoramento específico e esforços de conservação em cada região.
O professor Oliver Phillips, da Universidade de Leeds, que lidera a rede pan-amazônica RAINFOR, destacou a ameaça adicional do desmatamento. Ele disse: “Nossas descobertas destacam a importante ligação entre a proteção das florestas, a proteção da biodiversidade e o combate às mudanças climáticas. É particularmente importante proteger as florestas remanescentes onde a Amazônia encontra os Andes. Somente se permanecerem de pé poderão fornecer lares de longo prazo para espécies nas planícies vizinhas.”
O que a equipe planeja pesquisar a seguir?
Os investigadores planeiam continuar a investigar como as alterações climáticas estão a remodelar a diversidade das árvores tropicais.
“Pesquisas futuras se concentrarão em questões complexas de composição, incluindo as propriedades taxonômicas e funcionais de espécies que desapareceram ou foram recrutadas, e se isso indica um processo de homogeneização em larga escala na região Andes-Amazônica”, disse o Dr. Fadrick.
O estudo é resultado de uma colaboração internacional de mais de 160 pesquisadores de 20 países. Muitas contribuições vêm de universidades e parceiros de pesquisa sul-americanos. Este trabalho foi apoiado por grandes redes de pesquisa, incluindo RAINFOR, Red de Bosques Andinos, Projeto Madidi e Rede PPBio.



