Os cientistas descobriram uma razão principal pela qual mais de metade dos pacientes com doença renal crónica acabam por morrer de complicações relacionadas com o coração. De acordo com uma nova pesquisa, rins danificados liberam uma substância na corrente sanguínea que danifica diretamente o coração.
A descoberta, realizada por investigadores da Universidade de Virginia Health e da Universidade Mount Sinai, pode ajudar os médicos a identificar mais cedo pacientes em risco e abrir a porta a novos tratamentos destinados a prevenir ou retardar a insuficiência cardíaca em pessoas com doença renal.
“As doenças renais e cardíacas podem desenvolver-se silenciosamente, por isso os danos muitas vezes não são descobertos até que sejam feitos”, diz Uta Erdbrügger, MD, médica-cientista da Divisão de Nefrologia da Escola de Medicina da Universidade da Virgínia. “Nossas descobertas podem ajudar a identificar mais cedo os pacientes com risco de insuficiência cardíaca, permitindo um tratamento mais precoce e melhores resultados”.
Risco de insuficiência cardíaca na doença renal crônica
De acordo com os Institutos Nacionais de Saúde, mais de um em cada sete americanos, ou aproximadamente 35 milhões de pessoas, tem doença renal crónica. Esta condição é especialmente comum em pessoas com outros problemas de saúde. Cerca de um terço das pessoas com diabetes e cerca de um quinto das pessoas com pressão arterial elevada também têm doença renal.
Os médicos sabem há muito tempo que a doença renal crónica e a doença cardiovascular estão intimamente relacionadas, com danos renais mais graves associados a piores resultados cardíacos. No entanto, entender exatamente por que isso acontece é difícil. Muitos pacientes apresentam fatores de risco sobrepostos, como obesidade e hipertensão, tornando difícil determinar se os próprios rins estão causando danos diretos ao coração.
Causas específicas dos rins identificadas
Até agora, os pesquisadores não conseguiram identificar fatores específicos dos rins que danificam diretamente o coração. O novo estudo, liderado por Elderbrugge e seus colegas, aponta para um aparente culpado. Rins doentes liberam pequenas partículas chamadas “vesículas extracelulares circulantes” no sangue.
As vesículas extracelulares são produzidas por quase todas as células e muitas vezes servem como mensageiros, transportando proteínas e outras substâncias entre as células. No entanto, em pessoas com doença renal crónica, estas vesículas transportam pequenos ARN não codificantes chamados miARN, que os investigadores descobriram ser tóxicos para o tecido cardíaco.
Evidências laboratoriais e de pacientes
Em ratos de laboratório, o bloqueio da circulação destas vesículas extracelulares melhorou significativamente a função cardíaca e reduziu os sinais de insuficiência cardíaca. A equipe de pesquisa também analisou amostras de plasma de pacientes com doença renal crônica e de indivíduos saudáveis. Vesículas extracelulares prejudiciais foram encontradas em pacientes com doença renal, mas não em voluntários saudáveis.
“Os médicos há muito se perguntam como é que órgãos como os rins e o coração comunicam entre si. Mostrámos que os VE dos rins podem viajar até ao coração e tornar-se tóxicos”, diz Erdbrügger. “Estamos apenas começando a entender essa comunicação.”
Rumo à detecção precoce e novos tratamentos
As descobertas sugerem que um dia um exame de sangue poderá ser desenvolvido para identificar pessoas com doença renal crônica, que correm maior risco de problemas cardíacos graves. Os pesquisadores também poderão desenvolver terapias que bloqueiem ou neutralizem essas vesículas extracelulares circulantes, reduzindo seus efeitos prejudiciais ao coração.
“Nossa esperança é desenvolver novos biomarcadores e opções de tratamento para pacientes renais com risco de doença cardíaca”, disse Erdbrügger. “Nosso trabalho tem o potencial de melhorar a medicina de precisão para pacientes com DRC e insuficiência cardíaca, permitindo que cada paciente receba exatamente o tratamento de que necessita”.
Avanço na pesquisa de vesículas extracelulares
Para ajudar a avançar neste campo, Erdbrügger está organizando um workshop prático para cientistas de UVA focado especificamente na pesquisa de vesículas extracelulares. O workshop de cinco dias começará em 7 de fevereiro.
Encontrar respostas para os mistérios médicos mais urgentes e desenvolver novos tratamentos para doenças complexas são os principais objetivos do novo Instituto de Biotecnologia Paul e Diane Manning da Universidade da Virgínia. O instituto pretende acelerar a transição das descobertas laboratoriais para tratamentos do mundo real que podem salvar vidas.
Resultados da pesquisa publicados
As descobertas são publicadas na revista científica ciclo. O artigo é de acesso aberto, o que significa que pode ser lido gratuitamente.
Os membros da equipe de pesquisa incluem Xisheng Li Nikhil Raisinghani, Alex Gallinat, Carlos G. Santos-Gallego, Shihong Zhang, Sabrina La Salvia, Seonghun Yoon, Hayrettin Yavuz, Anh Phan, Alan Shao, Michael Harding, David Sachs, Carol Levy, Navneet Dogra, Rupangi Vasavada, Nicole Dubois, Erdbrügger e Susmita Sahoo. Os cientistas não relatam conflitos de interesse financeiros.
Esta pesquisa foi financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde através de subsídios HL140469, HL124187, HL148786, R01DK125856, 1-INO-2025-1704-AN, R21AG07848 e R01DK133598.



